Fé, Sinos e Tapetes: A Identidade Mineira se Renova na Semana Santa

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Procissão do Senhor dos Passos, em Vespasiano. Oração “Senhor dos Passos” (Trecho):
“Senhor dos passos, perdoai nossas maldades, apagai nossos pecados, os pecados do mundo inteiro, meu Jesus senhor dos passos. Tende de piedade de nós amém.”.
(extraído da página da Igreja N. Sra. de Lourdes da Matriz de Vespasiano no Instagram)

A Semana Santa de 2026, celebrada entre 29 de março (Domingo de Ramos) e 5 de abril (Domingo de Páscoa), transforma as cidades da Grande BH e do Colar Metropolitano em verdadeiros palcos de fé e cultura. Mais do que um feriado, o período é um mergulho nas raízes mineiras, unindo ritos centenários à devoção popular.

O Sentido da “Semana Maior”

Para os cristãos, este é o momento de celebrar o Mistério Pascal: a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Cada dia carrega um simbolismo:

Quinta-feira Santa: O rito do Lava-pés recorda a humildade e o serviço ao próximo.
Sexta-feira da Paixão: Dia de silêncio e reflexão sobre o sacrifício na cruz.
Sábado de Aleluia: A Vigília Pascal celebra a luz vencendo as trevas.
Domingo de Páscoa: A grande festa da Ressurreição e da esperança.

Nossas cidades preparam programações especiais que atraem fiéis de toda a região, com missas, procissões, confissões e a Encenação da Paixão e Morte de Jesus Cristo.

Algumas curiosidades que só Minas tem

O jeito mineiro de celebrar a Semana Santa é único: a linguagem dos sinos, os tapetes de serragem, a voz das matracas e o “Bacalhau de Minas” são algumas das características marcantes dessa importante passagem do calendário cristão.

A Voz das Matracas
Na Sexta-feira Santa, os sinos se calam em sinal de luto. O som seco das matracas de madeira ecoa pelas ruas, anunciando as procissões.

A Linguagem dos Sinos
Nas cidades históricas como Sabará e Santa Luzia, os sinos não tocam apenas para avisar o horário da missa; eles “falam”. Existe o toque de “finados” (lento e pesado) para a Sexta-feira da Paixão e o toque de “glória” (festivo e rápido) para o Domingo de Páscoa. Antigamente, dizia-se que, entre a tarde de quinta e a noite de sábado, os sinos “mordiam a língua” (ficavam em silêncio) em sinal de luto, sendo substituídos pelas matracas.

Os Tapetes de Serragem
Uma das imagens mais icônicas de Minas. Na madrugada do Sábado de Aleluia para o Domingo de Páscoa, comunidades inteiras atravessam a noite produzindo quilômetros de tapetes feitos de serragem colorida, pó de café, areia e flores. O objetivo é criar um caminho digno para a passagem do Santíssimo Sacramento na procissão da Ressurreição.

O Ofício das Trevas
BH mantém vivo o Ofício das Trevas (muito forte na Igreja da Boa Viagem). É uma cerimônia belíssima onde 15 velas são apagadas uma a uma, representando o abandono de Jesus pelos apóstolos, até que a igreja fique na escuridão total. O barulho final das matracas simboliza o terremoto ocorrido na morte de Cristo.

O Sermão do Encontro
É o momento mais emocionante para muitos mineiros. Duas procissões saem de pontos diferentes da cidade: uma com a imagem de Nossa Senhora das Dores e outra com o Senhor dos Passos (carregando a cruz). Elas se encontram em uma praça central, onde um padre profere o “Sermão do Encontro”, simulando o momento em que Maria vê seu filho a caminho do Calvário. Em cada cidade, esse encontro ocorre de acordo com as tradições locais.

A malhação e a queima do Judas no centro da cidade de Vespasiano, na década de 60. (Foto: Zé Aguiar).

A Malhação do Judas
Ainda muito comum nos bairros da periferia de BH e cidades do interior no Sábado de Aleluia. Bonecos de pano representando Judas Iscariotes (o traidor) são pendurados em postes e “surrados” pela população. Muitas vezes, o boneco carrega um “testamento” satírico com críticas sociais ou políticas da região. Em alguns casos, o boneco carrega amendoins que são espalhados. Nos anos 60, na cidade de Vespasiano, a Malhação de Judas era uma prática muito esperada. Após a malhação, que ocorria na parte central da cidade, era apresentado um testamento no antigo Cine Rex, sempre envolvendo os cidadãos e seus possíveis “pecados”. Tudo com muito bom humor.

Gastronomia: O Jejum e o Bacalhau
O costume mineiro de não comer carne vermelha na Sexta-feira Santa é levado a sério. Isso impulsiona o consumo do bacalhau, mas também de pratos locais como o feijão virado, a canjica branca (doce) e o tradicional pão de queijo, que nunca falta na mesa de café da manhã após a Vigília Pascal. O café compartilhado nas paróquias ou nas comunidades é outra prática comum.

Serviço:
Para conferir os horários detalhados das missas e procissões em cada paróquia da sua cidade, acesse o guia oficial no site da Arquidiocese de Belo Horizonte, ou entre em contato com as paróquias locais.

O que a Semana Santa celebra?

A Semana Santa é o período mais importante do calendário cristão. Ela não é apenas uma recordação histórica, mas a celebração do Mistério Pascal: a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Cada dia possui um simbolismo próprio que conduz o fiel da dor da entrega à alegria da vida nova:

Domingo de Ramos: Celebra a entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado pelo povo. Simboliza o reconhecimento de Cristo como Rei e Salvador, mas também o início de seu caminho de humildade em direção à cruz.

Procissão durante a Semana Santa no centro de Vespasiano, na década de 80. (Foto: Euler Jr.)

Segunda a Quarta-feira: Dias de reflexão e preparação, muitas vezes marcados pelas Procissões do Depósito (saída das imagens de Nossa Senhora das Dores e do Senhor dos Passos) e o emocionante Sermão do Encontro.

Quinta-feira Santa (Lava-pés): Relembra a Última Ceia. Aqui, Jesus institui a Eucaristia e o Sacramento da Ordem. O gesto de lavar os pés dos discípulos ensina que a autoridade cristã é, acima de tudo, serviço e amor ao próximo.

Sexta-feira da Paixão: O único dia do ano em que não se celebra a Missa. É um dia de silêncio, jejum e abstinência, focado na Adoração da Cruz e na morte de Jesus. Em Minas, as procissões do “Enterro” ou do “Senhor Morto” são o auge da devoção popular.

Sábado de Aleluia (Vigília Pascal): A “mãe de todas as vigílias”. Inicia-se no escuro e termina com a benção do Fogo Novo e do Círio Pascal, simbolizando que a luz de Cristo venceu as trevas da morte.

Domingo de Páscoa: É a festa central do Cristianismo. Celebra a Ressurreição, a vitória definitiva da vida sobre a morte e a esperança de renovação para toda a humanidade.