Na histórica visita que realizou à província de Minas Gerais em 1881, o Imperador D. Pedro II percorreu diversas cidades da nossa região

Nova Lima, Sabará, Santa Luzia, Lagoa Santa, Vespasiano, Pedro Leopoldo, Matozinhos, Caeté e Barão de Cocais, estão entre os municípios percorridos pelo imperador

Entre os dias 26 de março e 30 de abril daquele ano, o monarca (1825-1891), acompanhado pela Imperatriz Teresa Cristina e por uma comitiva composta por jornalistas e convidados, realizou uma extensa jornada de 35 dias pelo território mineiro.

Dentre os municípios visitados oficialmente na região central, destacam-se Nova Lima, Sabará, Caeté, Santa Luzia, Lagoa Santa e Barão de Cocais. Durante os trajetos entre essas localidades, a comitiva imperial também passou por Vespasiano, Pedro Leopoldo e Matozinhos. A principal fonte documental dessa jornada é o próprio diário de D. Pedro II; o imperador anotava meticulosamente cada detalhe em cadernetas que hoje compõem o acervo preservado no Museu Imperial de Petrópolis.

Monarca de perfil erudito, D. Pedro II assumiu o trono em 1840, aos 14 anos, no episódio conhecido como o Golpe da Maioridade. Interessado pelos avanços científicos em todas as áreas, um dos propósitos centrais de sua vinda à região foi conhecer de perto as pesquisas realizadas pelo naturalista dinamarquês Peter Lund nos sítios arqueológicos entre Lagoa Santa, Pedro Leopoldo e Matozinhos. Além do interesse científico, a visita focava no desenvolvimento provincial, na expansão da rede ferroviária, na mineração e na cultura local. O imperador demonstrou curiosidade por tudo: da geografia e natureza às instituições públicas, serviços de saúde e o cotidiano dos habitantes.

Metódico, o monarca mantinha uma rotina rigorosa: recolhia-se por volta das 21h e despertava às 5h para iniciar suas atividades. Em solo mineiro, visitou igrejas e hospitais, assistiu a aulas em educandários e explorou as profundezas da Mina do Morro Velho, em Nova Lima. Visitou ainda as grutas da região da Lapinha, a Quinta do Sumidouro e o Jaguara, em Matozinhos. Por onde passava, era recepcionado por lideranças políticas, fazendeiros, comerciantes e pela população local.

A seguir, analisaremos passagens específicas de seu diário entre os dias 03 e 13 de abril de 1881. Este recorte compreende o trajeto desde Nova Lima até o Santuário do Caraça, em Catas Altas. O imperador visitou também cidades históricas como Ouro Preto (capital da província) e Mariana, entre outras. Para facilitar o aprofundamento no tema, disponibilizamos ao final deste texto indicações de reportagens, vídeos e links para as fontes primárias (volumes 24 e 25 dos diários) disponíveis no portal da Biblioteca Nacional.

A Viagem Imperial a Minas em 1881

Chegada do Imperador a Santa Luzia. Foto: acervo Biblioteca Nacional

Eis alguns trechos extraídos do Diário de D. Pedro II:
[Para facilitar a leitura, as citações do diário do imperador serão apresentadas com fundo cinza e letras em itálico.]

“3 de abril de 1881 (domingo) – Missa dita pelo monsenhor pouco antes das 5 h. Partida às 6 h 20’. Manhã fresca, com belíssima, linda paisagem… Sítio de D. Florisbela do lado oposto do rio muito bonito com suas altas macaúbas. O coco desta palmeira dá azeite fazendo-se da polpa sabão e das folhas excelentes cordas. Esse sítio parece uma ilha de verdura. Antes de Sto. Antônio vieram ao encontro dois empregados de Morro Velho [mina em Nova Lima]. Na longa ponte de Sta. Rita que atravessa o rio estava o diretor de Morro Velho e muita gente. Ia olhando distraído, diversas mulheres correram para mim e espantando-se o cavalo caí dele. Não foi nada, montei noutro oferecido pelo diretor de Morro Velho e continuei a andar.”

Essa passagem é, de fato, um tanto quanto pitoresca, pois o imperador sofre uma queda do cavalo, mas não se machuca gravemente. A imprensa da época registrou o momento e o próprio monarca fez questão de anotar o ocorrido em seu diário.

“…Vim conversando com o diretor de Morro Velho. Passei pelo arraial de Congonhas do Sabará e cheguei à casa de residência do diretor ainda com bastante luz. A vista do alto de onde se desce para o arraial é muito bela. Muita gente reunida. Só de homens empregados pela companhia há 6.000. Tomei um banho morno tendo antes visto da varanda o fogo de artifício; jantei às 7 1/5 e pouco depois deitei-me…”

A Mina do Morro Velho e o trabalho 

“4 de abril de 1881 (2ª feira) — Acordei às 5 ½. Banho frio. Vai começar a tarefa do dia. Antes do almoço às 11 ½ — Amalgamação — O ouro talvez não esteja todo puro sem combinação química que impeça em parte a liga com o mercúrio…” 

Nesse momento, acompanhado pelo mineralogista francês Claude-Henri Gorceix (fundador da Escola de Minas de Ouro Preto), o imperador demonstra seu profundo interesse pelas técnicas de extração mineral e pelas ciências aplicadas. 

“…Olhei de cima do precipício os estragos da mina que se incendiou, diz o diretor que por malefício. Na volta para casa [do diretor da mina do Morro Velho] entrei na biblioteca. Possui boas obras inglesas sobretudo as de viagens modernas na América do Sul e interior da África. Saída de novo à 1 ½. Hospital está bem arranjado. As latrinas ficam inodoras pela queda de carvão ou terra produzida pelo movimento. Lançam-se depois longe e num buraco as matérias excrementícias. Capela católica. É grande porém pouco cuidada.” 

Notem como D. Pedro II observa e anota cada detalhe por onde passa: do funcionamento das minas e hospitais à higiene pública e ao estado das igrejas. Além de escrever, o monarca frequentemente desenhava as paisagens em seus cadernos. 

“Às 3 [3 horas da tarde] estava à boca da mina. Vesti-me como mineiro com minha vela pregada com argila ao chapéu. Começou a descida no ascensor às 3 ½. Movimento muito suave. Muita água escorria das paredes do poço. Em um ¼ tocávamos o fundo a 457 metros. Há outro andar inferior que vi bem dos poços, estando o fundo bem alumiado com estopa queimada, velas, magnésio, etc. … Demorei dentro da mina mais de 1 ½.” 

Neste trecho, o imperador relata a experiência de descer às profundezas da Morro Velho trajando roupas de “mineiro” — referindo-se aqui ao ofício da mineração, e não à naturalidade de quem nasce em Minas Gerais. 

“Antes das 6 já tomara eu banho morno. O diretor disse-me que os empregados e operários contribuem com 1$000 por mês para acudir aos que não podem trabalhar. É grande partidário dos trabalhadores chins… O jantar foi às 7 ¼ e depois conversamos até perto das 10. Noite belíssima. O diretor mostrou lindos cristais de rocha achados na mina. Alguns contém piritas que se irisam. O maior salário de empregado nos trabalhos da mina é de 15 £ por mês. Trabalham dia e noite em três turmas que se revezam. As brocas são pagas por empreitadas e alguns abrem-nas 3 horas. A melhor madeira empregada é baraúna. Não vi a capela protestante. Há escola para os meninos filhos dos trabalhadores e empregados. Na botica do hospital aviam-se receita dos trabalhadores e empregados e de todos os que têm relações domésticas com eles.” 

Neste parágrafo, o monarca registra a rotina operacional: os salários de elite, as jornadas ininterruptas, os sistemas de assistência à saúde e a educação para os filhos dos funcionários. O imperador anota ainda que a exploração admitia trabalhadores do sexo masculino a partir dos 12 anos. É essencial analisarmos o que está escrito e o que é omitido. O salário mencionado pelo diretor, se convertido para valores de 2026 considerando o poder de compra histórico, equivaleria a algo entre R$ 15mil e R$ 18 mil mensais — um valor restrito a uma pequena elite técnica estrangeira. Seria inviável para a companhia inglesa pagar tal quantia aos 6.000 operários. Na realidade, grande parte dessa força de trabalho era composta por pessoas escravizadas “alugadas” de seus senhores — uma manobra para burlar as leis inglesas que já proibiam a escravidão —, recebendo apenas o estritamente necessário para uma precária sobrevivência. Quanto à referência aos “trabalhadores chins”, tratava-se do debate sobre a imigração chinesa (os “coolies”). Eles eram vistos por setores da elite brasileira como uma alternativa para substituir a mão de obra escravizada, sob a premissa de que aceitariam baixíssimos salários e condições precárias que imigrantes europeus não tolerariam.

Sabará: Educação, Saúde e Administração Pública

“5 de abril de 1881 (3ª feira) — Banho, leve refeição e partida às 6 h. Conversei muito com o diretor de Morro Vermelho, até perto de Sabará. Segui primeiro o bom caminho que serve de passeio ao diretor e sua família, até pouco além de um dos 2 pontos de dinamite. Bela vista do lado da serra do Curral, avistando-se ao longe pontas da serra da Piedade. Garoa forte.”

Neste trecho, D. Pedro II vislumbra a Serra do Curral, local onde, apenas 12 anos mais tarde, seria iniciada a construção da nova capital mineira, Belo Horizonte (inaugurada em 1897). A nova capital, inicialmente chamada Cidade de Minas, foi erguida sob a égide do regime republicano, proclamado em 1889.

“Chegada ao Arraial Velho onde foi o antigo Sabará. Estavam aí o deputado Assis Martins e outros. O Rio das Velhas já foi navegado por vapor pequeno desde pouco abaixo do Arraial Velho. A chegada a Sabará é bonita. Entro na casa onde hospedou-se meu Pai às 9 ½.”

Às 9h30, o monarca entrava no Solar do Padre Correia, casarão histórico de 1773 onde seu pai, D. Pedro I, se hospedara em 1831. Curiosamente, a viagem de seu progenitor ocorreu meses antes de sua abdicação, em um clima de hostilidade política. Cinquenta anos depois, seu filho era recebido com calorosa hospitalidade no mesmo local.

“Almoço às 10 ½. Saí ao meio-dia. Liceu com internato para poucos na casa que foi do barão de Curvelo. O aluno de latim traduziu bem Tito-Lívio. Os de francês não têm má pronúncia. O de geometria desagradou-me assim como os de geografia. A casa não é boa. Quatro aulas duas de meninos e duas de meninas. Quase todas más casas. Só me agradou uma das aulas de meninas. Visitei a Igreja do Carmo que nada tem de notável, e a casa onde nasceu o Sapucaí e foi vendida ao desembargador José Lopes da Silva Viana. Tem jardim maltratado com um chafariz. Colhi um ramo de uma mangueira que dizem ter sido plantada pelo Sapucaí de caroço de manga trazida de Alagoas. A vista para ambos lados — serra do Curral e da Piedade que vi alumiada pelo sol uma parte penhascosa são bonitas. Hospital da Misericórdia. Mal situado. Estava limpo. Na sala do consistório estão os retratos do fundador do vínculo da Jaguara de onde provém a renda do hospital do finado barão de Sabará que tem excelente fisionomia e de mais dois padre benfeitores. Esperam aumentar a renda com o resto da liquidação do vínculo. Pensam em fundar casa para Lázaros, mas lembrei que era melhor empregar o dinheiro no hospital geral e que no Rio de Janeiro havia muito lugar para lázaros.”

Note-se que o imperador era rigoroso com o gasto público e a eficácia das instituições. “Lázaros” era o termo da época para as pessoas com hanseníase. Em vez de criar pequenos asilos isolados em cada cidade – que na prática representava uma segregação dessas pessoas -, o monarca defendia a centralização dos recursos e o fortalecimento de hospitais gerais, sugerindo que casos complexos fossem encaminhados à capital do Império.

“Te Deum no Carmo. Ruim música. O vigário irmão do cônego Roussin pregou bem. Depois recebi. As ruas têm ladeiras e são calçadas de pedras que espetam os pés.”

É interessante notar que o calçamento de pedras — hoje preservado como patrimônio histórico e símbolo da nossa memória — era visto pelo monarca de forma pragmática e desconfortável: para ele, aquelas pedras apenas “espetavam os pés”.

Fazendas, Macaúbas e as Frutas Locais

Pequis e araticuns. Do Blog Sumidoiro’s

“6 de abril de 1881 (4ª fa) — Acordei às 5 h. 6 h ¼. Começo a navegar o rio das Velhas… O rio começa a baixar em abril e a encher de 7bro [setembro] por diante… 10 h. Avista-se a igreja de Sta. Luzia à margem direita no alto de uma montanha… Chegamos às 11 ¼. Almoço e pouco depois conversei com o dr. Modestino Franco que julga que a estrada de ferro deve ir até a foz do Paraúna.”

Neste trecho, D. Pedro II avista a Igreja Matriz de Santa Luzia, que visitaria formalmente dias depois. Sua menção aos planos de extensão da malha ferroviária reflete o processo de modernização que, de fato, transformaria a economia e a paisagem de Minas Gerais nas décadas seguintes.

“…Defronte casa da fazenda da Carreira-Comprida… 3 h. Muitas macaúbas (acrocomia selerocarpa)…”

O imperador faz referência a propriedades icônicas, como a Fazenda Carreira Comprida. Vale notar uma curiosidade genealógica: Joaquim da Fonseca Ferreira, um dos herdeiros desta fazenda, casou-se com Mariana Joaquina da Costa, considerada a fundadora da atual cidade de Vespasiano (então Arraial do Capão).

“4 h. Avista-se a serra da Piedade do lado para onde o rio corre. 4 h 26’. Fazenda Pinhões — de cana na margem direita. As canas têm aparecido bonitas. Pedimos algumas que nos atiraram para bordo… 5 ½ — Chegada ao porto de Macaúbas. 6 ½. Fui ver a igreja — nada tem de notável — colégio 32 meninas… e recolhimento 39 recolhidos… O diretor padre Lana, mineiro pagou 40 contos da dívida. Tem um pequeno engenho de cana que não trabalha. Não possui escravos.”

Aqui, o monarca refere-se ao Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas. Fundado como Casa de Recolhimento, o local abrigou o primeiro colégio feminino de Minas Gerais. É notável a observação de D. Pedro II sobre a ausência de pessoas escravizadas no engenho do Padre Lana, sinalizando uma transição produtiva, ainda que lenta, na região. É importante destacar, ainda, a existência, já naquela época, do Quilombo dos Pinhões, que ficava na divisa entre as fazendas, e que produzia artesanato, agricultura, panelas de barro e doces. É bem provável que o monarca, a bordo de um barco, tenha recebido algumas canas das mãos dos antepassados dos atuais quilombolas!

“7 de abril de 1881 (5ª fa) — Acordei às 5… Partida a cavalo… A vista de um alto descobre largo horizonte: Serra do Curral, pico de Itabira; Serra da Piedade… Pequi fruto de caroço espinhoso que deve comer-se com cuidado para não ferir a boca e a língua… e apanharam-se 2 araticuns num só ramo.”

Este trecho merece dois registros fundamentais:

A Profecia da Capital: O imperador novamente se encanta com a Serra do Curral. Ao descrever o “largo horizonte”, ele contemplava a moldura natural do antigo Arraial do Curral del Rei, onde, a partir de 1893, seria erguida a “Cidade de Minas” (rebatizada como Belo Horizonte em 1901).
Botânica e Gastronomia: A descrição minuciosa das frutas do Cerrado, como o pequi e o araticum, revela o espírito científico do monarca. Seu alerta sobre os espinhos do pequi permanece atual para qualquer visitante que venha a Minas em 2026.

“Esquecia-me dizer que até o embarque conversei com o padre João Batista Caldeira… Vi outro padre Castro de guedelhas pretas cuja fisionomia revela hipocrisia…”

O diário também revela o lado humano e, por vezes, sarcástico do imperador, que não hesitava em anotar suas impressões pessoais sobre as figuras que encontrava, como o comentário ácido sobre a “fisionomia hipócrita” de um religioso.

Lagoa Santa e o Legado de Peter Lund

“Às 8 ½ avistei a Lagoa Santa do alto de um morro. Lembrei-me do lago de Nicefa, cujo aspecto é contudo mais pitoresco… Vieram pessoas a meu encontro e entre elas o dr. Inácio e o barão do Rio das Velhas… Monsenhor José Augusto disse-me ter já visto 2 seriema perto de Queluz.”

D. Pedro II, monarca erudito e viajado, inicia suas impressões comparando a paisagem local ao Lago Nicephorus (na atual Turquia). É importante notar seu olhar cosmopolita: enquanto ele por vezes considerava as igrejas dos arraiais “insignificantes” se comparadas às catedrais europeias, para a população local — especialmente as irmandades de negros que erguiam templos como o de Nossa Senhora do Rosário — essas construções eram símbolos máximos de identidade, de pertencimento e de fé.

Na chegada, o Imperador foi recebido por Francisco de Paula Fonseca Viana (1820–1893), o Barão do Rio das Velhas. A trajetória do Barão é um exemplo da política de conciliação do Segundo Reinado: revolucionário liberal de 1842 (um “luzia”), ele tornou-se aliado do trono, financiando voluntários para a Guerra do Paraguai. O monarca hospedou-se em sua residência, apesar de o Barão ter sofrido um grave acidente pouco antes.

“A entrada da povoação foi por entre hastes e ramos de bananeiras… Casa do Lund. Percorri-a toda vendo o quarto onde ele morreu… Nereu Cecílio dos Santos, que Lund protegeu desde menino… Lund fixou-se na Lagoa Santa em 1834 de onde não saiu mais. Todos dizem ser lugar muito sadio havendo muitos centenários, um de 137 [anos] tendo morrido há pouco tempo…”

O Imperador descreve a acolhida festiva e visita a moradia de Peter Wilhelm Lund. Ele conversa com Nereu Cecílio dos Santos, secretário e “filho de criação” do naturalista. Um detalhe marcante, preservado pela tradição oral, é que ao visitar o túmulo de Lund, o Imperador foi saudado pela banda de música Santa Cecília, fundada pelo próprio dinamarquês. D. Pedro II registra com admiração o histórico de Lund, que trocou a Europa pelo interior de Minas em busca de saúde e ciência.

“Lund vivia muito retirado… Era de proceder castíssimo e muito esmoler… Parece que Lund só tinha a religião natural.”

Embora Lund fosse protestante, o Imperador nota sua “religião natural” e seu desprendimento material. O túmulo de Lund, que o monarca visitou, permanece até hoje em solo lagoassantense, sob a sombra de um pequizeiro, conforme o desejo do naturalista.

“Duas escolas ambas em edifícios acanhados… Aproveitei a ocasião para repetir que a doutrina religiosa deve-se ensinar somente na casa paterna e na igreja ou templo… o que não sucede ainda no Brasil.”

Este comentário é revelador: D. Pedro II, embora católico, defendia o Estado Laico na educação. Para ele, a ciência pertencia à escola, e a fé, ao lar e aos templos — uma postura avançada para a época, dada a união oficial entre Igreja e Estado (Padroado).

“São 2 [horas da tarde] vou navegar a lagoa… dizem-me que há 3 anos… sentiam-se estrondos e abalos da terra… Na volta do passeio da lagoa que é muito piscosa, não pegando contudo peixe nos anzóis durante as paradas do barco… Chegada à casa às 4. O Nereu deu-me em casa do Lund apontamentos que devem ser exatos.”

O Imperador encerra o dia navegando pela lagoa central, atento tanto à pescaria quanto aos relatos de fenômenos geológicos (estalos e abalos) descritos pelos moradores. Mesmo após uma jornada exaustiva, ele registra que continuaria a escrever e refletir sobre a viagem antes de dormir, evidenciando sua disciplina intelectual.

O Olhar do Imperador nas Grutas da Região

“8 de abril de 1881 (6ª fa) — 5 h. Saída para a gruta da Aldeia… Engenho Fidalgo; Lapinha pequena… Mocambo… O caminho tinha sido preparado e estava bom… Passa-se junto ou pouco longe de 5 ou 6 depósitos de água das chuvas que disse-me meu guia Antônio Fonseca Viana secam depressa.”

Neste trecho, o monarca registra sua incursão pelos sítios arqueológicos da região do Carste de Lagoa Santa, abrangendo os atuais municípios de Lagoa Santa, Pedro Leopoldo e Matozinhos. Ele descreve com precisão o cenário encontrado:

“Cheguei à gruta às 11. Bonito mato a precede… A parte fronteira semelha um magnífico arco ou pórtico, com púlpito externo e um buraco parecendo uma rosaça. Raízes ou trepadeiras que parecem cordas pendem dessa fachada de igreja gótica… Belos estalactites na primeira sala… Gorceix mandou abrir um buraco no fundo da sala grande, porém nada encontrou senão a entrada provável do andar inferior. Na noite passada já tinha um pequeno osso que eu trouxe.”

A descrição de D. Pedro II revela sua sensibilidade estética e conhecimento técnico. Ao comparar a entrada da gruta a uma “igreja gótica”, ele une o olhar artístico à curiosidade científica. A presença de Gorceix reforça o caráter exploratório da viagem: o imperador não era um simples turista, mas um entusiasta que coletava amostras (como o “pequeno osso”) para estudos posteriores.

“Estive na gruta 2 horas… Encontrei aí um Manuel Simão dos Reis que disse-me como Lund em companhia encontrara o esqueleto na gruta da Escrevania. Simão tirava salitre e depois de achar os dedos dos pés e o resto do esqueleto procurando mais dera com o crânio.”

O monarca ouve relatos diretos sobre as descobertas de Peter Lund. Manuel Simão, trabalhador de salitre, narra o achado na Gruta da Escrivania, em Matozinhos — local onde Lund encontrou restos humanos que desafiaram as teorias da época sobre a antiguidade do homem nas Américas.

“9 de abril de 1881 (sábado) — 6 h. Partimos para Sta. Luzia… Nereu mandou-me as obras de Lund que pôs a parte em sua livraria. Hei de levá-las para mandar traduzir as que tratam de fósseis enviando cópia ao Gorceix.”

É importante destacar que a região abriga centenas de grutas. Embora hoje as mais famosas para o turismo em 2026 sejam a Lapinha (Lagoa Santa), Rei do Mato (Sete Lagoas) e Maquiné (Cordisburgo), o diário mostra que D. Pedro II explorou cavidades menos comerciais, focado no potencial arqueológico do eixo Lagoa Santa-Matozinhos.

“O barão do Rio das Velhas ao sair da casa onde pousa caiu da escada de pedra de grande altura. Feriu bastante a testa e contundiu fortemente o olho esquerdo. Tem vomitado. Fui vê-lo antes de sair.”

O monarca relata o grave acidente sofrido pelo seu anfitrião, o Barão do Rio das Velhas, que caiu de uma escada de pedra durante a madrugada. Demonstrando solicitude, D. Pedro II colocou o médico da comitiva imperial à disposição do Barão, que, devido à gravidade dos ferimentos, não pôde prosseguir acompanhando a comitiva.

Vespasiano, Santa Luzia e a Memória Local

“9 de abril de 1881… O caminho é por chapadão descendo-se todavia para passar o ribeirão da Mata, e o Córrego Sujo e outros poucos lugares até a grande descida para a ponte de Sta. Luzia. Desse alto onde Gorceix mostrou massas anfibólicas a vista é belíssima…”

Neste registro, D. Pedro II documenta sua passagem pelo então Arraial do Capão, atual cidade de Vespasiano. Ele cita acidentes geográficos que ainda hoje definem a topografia local, como o Ribeirão da Mata e o Córrego Sujo.

Um possível circuito turístico para Vespasiano. Imagem do Google Maps.

Nota do Autor: Este registro histórico oferece uma oportunidade valiosa para o poder público de Vespasiano. A criação de um parque linear às margens do Ribeirão da Mata poderia ser o ponto de partida para um circuito turístico imperial. O roteiro incluiria a Rua Dona Mariana da Costa (fundadora da cidade), a Biblioteca Pública Herbert Fernandes, a Escola de Música Nila Faraj e a Casa da Cultura Aluízio Barbosa Martins (que abriga o Museu de Folclore Saul Martins). O trajeto seguiria pelo Palácio das Artes Nair Fonseca Lisboa, pela Avenida JK, subindo à direita até a Igreja Matriz de Nossa Senhora de Lourdes e a Praça da Matriz; e o histórico Grupo Escolar Coração de Jesus. Para coroar o projeto, a recuperação da Estação Ferroviária como centro cultural ou museu daria à Vespasiano um equipamento turístico à altura de sua importância na região.

Um dado curioso sobre essa passagem foi registrado pelo escritor Mário Faraj no livro História de Vespasiano. Segundo relatos de Dona Mariana da Costa (pág. 40), a elite local [de Lagoa Santa] não poupou esforços para receber a comitiva do imperador: “Foram ofertados [por Dona Mariana] para ela [para a família real] todos os paramentos de seda ou linho inglês, importados… o povo simples de então pôs-se em festa e ela dizia que sempre esteve à frente de tudo, devido ao seu poder econômico”.

“12 h. Igreja matriz [de Santa Luzia], as duas aulas em salas estreitas agradando-me somente a de meninos. Câmara e cadeia de alçapão na mesma casa ruim. Padrões métricos mal conservados. Soldados de espingarda mas sem baioneta nem sabre.”

Em Santa Luzia, o monarca demonstrou seu habitual rigor crítico. Embora tenha elogiado a Igreja Matriz, foi severo com o estado da Câmara e da cadeia. Um silêncio, porém, chama a atenção: o Imperador não mencionou o Solar Teixeira da Costa (atual Casa da Cultura), situado logo em frente. Durante a Revolução Liberal de 1842, o casarão abrigou os revoltosos que lutaram contra a monarquia. Enquanto um jornalista da comitiva imperial contou 80 perfurações de bala em uma janela do solar, D. Pedro II parece ter ignorado o local, possivelmente para evitar reviver tensões políticas passadas.

Desenho de Santa Luzia feito pelo imperador. Fonte: Museu Imperial

Apesar do silêncio sobre o solar, o monarca desenhou a paisagem histórica da cidade em seus cadernos, um gesto que ajudou a consolidar o título de “Cidade Imperial” para Santa Luzia.

Encerramos aqui esta primeira parte da jornada. Nas próximas semanas, concluiremos este apanhado histórico focando na visita ao Santuário do Caraça, em Catas Altas. Como o próprio D. Pedro II teria afirmado ao vislumbrar a majestosa serra: “Só o Caraça paga toda a viagem a Minas.

Editoria do Portal, 07 de janeiro de 2026.

Fontes para consulta e aprofundamento:

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Veja também:

Luzia: o fóssil que recontou a
pré-história das Américas