

A Lenda de Sabarabuçu e sua Influência no Surgimento de Minas Gerais
Minas Gerais completou, no último dia 2 de dezembro de 2025, 305 anos. A história do estado, porém, não começa com a descoberta do ouro no final do século XVII, mas muito antes, quando a região era um vasto sertão desconhecido para os colonizadores europeus. No centro desse enredo está uma lenda indígena — a de Sabarabuçu, mito que descrevia uma “montanha que brilha” ou “montanha resplandecente” (itá’berab’uçú). Mais do que uma curiosidade folclórica, essa narrativa guiou expedições, moldou trilhas e influenciou diretamente o processo de ocupação que resultaria, mais tarde, no surgimento do nosso estado.
Os bandeirantes e a busca pela Montanha Brilhante
Antes da formação dos primeiros povoados, a região era palco das bandeiras paulistas, expedições em busca de riquezas minerais, de indígenas para escravização e de novos campos de exploração. Nomes como Fernão Dias, Antônio Rodrigues Arzão e Raposo Tavares deixaram São Paulo movidos por relatos de que, no coração do sertão, havia uma montanha de brilho intenso, repleta de ouro e minerais cintilantes. Imaginemos o impacto desses relatos e o quanto alimentavam o desejo de encontrar esse tesouro oculto nas Gerais.
Para os povos originários, essa montanha — o Sabarabuçu — funcionava como marco natural e, para os bandeirantes, tornou-se motivo e orientação. Na tentativa de localizá-la, abriram picadas, mapearam rios e criaram trilhas que, décadas depois, seriam cruciais para a ocupação mineradora.
Os primeiros arraiais e o nascimento de Sabará
A busca pela montanha luminosa conduziu os exploradores a áreas ricas em ouro, especialmente no atual Quadrilátero Ferrífero. Acampamentos improvisados se transformaram em arraiais, muitos deles fundamentais para o surgimento das cidades históricas mineiras.
Entre esses núcleos destacam-se:
- Arraial Velho
- Arraial de Nossa Senhora da Conceição
- Arraial de Santo Antônio do Ribeirão
- Arraial de Nossa Senhora do Pilar
O mais emblemático, a Vila Real de Nossa Senhora da Conceição, deu origem a Sabará, uma das localidades mineradoras mais antigas de Minas. O nome da cidade pode estar diretamente ligado à lenda: “Sabará” seria uma forma abreviada de Sabarabuçu, termo tupi reinterpretado pelos colonizadores. Em mapas do início do século XVIII, a associação entre o arraial e a Montanha Brilhante era tão forte que Sabará aparecia simbolicamente como “a porta de entrada da terra luminosa”.
O site oficial da Prefeitura de Sabará registra esse percurso histórico:
“O fastio de ouro fez a Coroa Portuguesa instalar as casas de Fundição, a fim de serem cobrados os impostos sobre a produção aurífera. Contudo, terminado o Ciclo do Ouro, Sabará manteve relativa atividade comercial até boa parte do século XIX e, ainda hoje, o ouro é explorado no município. Em 1822, Sabará contribuiu com significativa importância em dinheiro e com voluntários para a luta pela Independência. A chegada da Ferrovia Central do Brasil inaugurou o Ciclo do Ferro, que também persiste até os dias atuais.”

Sabarabuçu e a geografia real: a Serra da Piedade
A lenda do Sabarabuçu consolidou-se historicamente associada à Serra da Piedade, em Caeté. No século XVII, bandeirantes relataram ter avistado um brilho intenso no cume dessa serra e imaginaram tratar-se de uma grande jazida de prata ou de pedras preciosas — o que corresponderia, em tupi-guarani, a Itaberaba-uçú, “pedra grande brilhante”.
A expectativa alimentou expedições e motivou a abertura de um caminho que ficaria conhecido como Caminho do Sabarabuçu, mais tarde incorporado à Estrada Real.
Ao chegarem ao topo, porém, os exploradores descobriram que o brilho vinha do reflexo do sol no itabirito, rico em minério de ferro — o que frustrou a esperança de encontrar metais preciosos em abundância.
A explosão do ouro, a Guerra dos Emboabas e o nascimento da Capitania
A corrida pelo ouro, iniciada no final do século XVII, provocou um intenso fluxo populacional para as Minas. Paulistas, baianos, portugueses e homens de diversas partes da colônia concentraram-se nos arraiais em busca de fortuna. O encontro desses grupos gerou tensões que culminaram, entre 1707 e 1709, na Guerra dos Emboabas, conflito entre os bandeirantes paulistas e os recém-chegados — os emboabas, nome que, segundo uma das interpretações, referia-se às botas e polainas que lembravam “aves de pernas emplumadas”.
O conflito evidenciou a necessidade de maior controle por parte da Coroa portuguesa e revelou a importância estratégica da região. Poucos anos depois, em 1720, como medida administrativa e para evitar novos confrontos, foi criada oficialmente a Capitania de Minas Gerais.
Estrada Real: dos caminhos indígenas às rotas do ouro
Para garantir o controle do ouro e a cobrança dos tributos, a Coroa organizou e oficializou caminhos já utilizados desde as primeiras expedições. Nascia a Estrada Real. Os trajetos inicialmente abertos pelos bandeirantes, muitos deles inspirados pela busca do Sabarabuçu, foram institucionalizados como rotas oficiais que ligavam:
- Paraty e Rio de Janeiro aos arraiais mineradores,
- Sabará a Vila Rica (Ouro Preto) e Mariana,
- o interior ao litoral.
Assim, trilhas que surgiram na perseguição a um mito se transformaram na infraestrutura viária mais importante da colônia, essencial para a economia e para a administração portuguesa.
A lenda que moldou Minas
A lenda de Sabarabuçu consolidou-se como um dos mitos fundadores das Gerais. Sua força simbólica ajudou a atrair exploradores, inspirou rotas e influenciou a formação dos primeiros núcleos urbanos. Representou o encontro entre a natureza exuberante, o imaginário indígena e a ambição colonial — ingredientes que moldaram a identidade mineira. A esse caldeirão se somam ainda a influência decisiva do catolicismo, com as igrejas que marcavam o nascimento de cada arraial, e o legado africano, presente nos quilombos, nas irmandades do Rosário, nos cultos, danças e cantos.
Hoje, ao celebrar 305 anos, Minas Gerais reencontra em Sabarabuçu um símbolo de origem: a montanha que, mesmo envolta em mistério, guiou passos, abriu caminhos e iluminou o surgimento de uma das regiões mais marcantes do Brasil. Nada mais oportuno do que revisitar essa lenda para compreender de onde vêm as Minas Gerais — e por que elas brilham.
A lenda do Sabarabuçu — resumo
A lenda de Sabarabuçu, do tupi “pedra grande brilhante” ou “serra resplandecente”, atraiu bandeirantes e colonizadores para a região onde hoje se encontra Sabará, no final do século XVII. Descrevia uma serra rica em prata, ouro e pedras preciosas e aguçou a imaginação dos exploradores.
A busca incansável
O mito indígena: falava de uma “montanha resplandecente” (itá’berab’uçú).
A cobiça dos bandeirantes: figuras como Fernão Dias e Borba Gato lideraram expedições para encontrá-la.
O resultado: a serra mítica nunca foi localizada, mas a busca levou à descoberta de ricas jazidas de ouro às margens do Rio das Velhas.
O povoamento: essas descobertas impulsionaram a fundação de Sabará, Caeté, Santa Bárbara, Vila Rica (Ouro Preto), Mariana, entre outras.
A lenda é parte essencial da história da mineração no Brasil e da formação das cidades históricas mineiras — um exemplo de como mitos podem orientar os rumos da colonização.
Historiografia: a dualidade da sociedade mineradora
A sociedade que se formou em torno da mineração no século XVIII foi marcada por contrastes profundos. A riqueza extraída do solo não gerou prosperidade generalizada; ao contrário, estruturou uma sociedade extremamente desigual, sustentada pelo trabalho escravo. Mesmo após a Independência (1822) e a República (1889), essa desigualdade persistiria.
Uma pequena elite — grandes mineradores, comerciantes de grosso trato e funcionários da Coroa — acumulou fortunas que se refletiam em casarões, igrejas ricamente ornamentadas e hábitos luxuosos, como a importação de mercadorias europeias.
A maioria, porém, vivia em condições precárias: os milhares de escravizados, submetidos a trabalho exaustivo e desumano, e um contingente expressivo de homens e mulheres livres pobres, os “desclassificados do ouro”, que sobreviviam de pequenos ofícios, agricultura de subsistência e atividades marginais.
A extração atingiu seu auge por volta da metade do século XVIII e entrou em rápida decadência nas décadas seguintes, agravando ainda mais as desigualdades em uma sociedade totalmente dependente da produção aurífera.
Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura do clássico “Opulência e Miséria das Minas Gerais”, de Laura de Mello e Souza, obra fundamental para compreender as dinâmicas sociais e econômicas da capitania.
…………
Nota da Redação: Em função das férias dos editores, os novos episódios do bloco Curiosidades serão retomados no dia 09 de janeiro de 2026. Já os demais blocos do portal serão atualizados normalmente.
Veja também:
Feijão tropeiro: Das tropas de “muares” (mulas) a um dos mais deliciosos pratos da comida mineira
Juquinha, nosso personagem da semana: símbolo do “espírito” da Serra do Cipó
