Personalidades da História de Vespasiano

Por Euler Jr.

Maria Barrinha

Pessoa muito querida em Vespasiano, Maria Barrinha caminhava tranquila pelas ruas do município, sempre conversando com os moradores de forma suave e alegre. Fumava seu cachimbo como quem transmite um sinal de paz, apreciando, despreocupadamente, o cotidiano do antigo Arraial. Embora faltem registros detalhados sobre sua biografia, sua presença constante e discreta tornava a vida local mais leve, despertando na comunidade um profundo sentimento de pertencimento. Maria Barrinha marcou a história da cidade em uma época em que as pessoas ainda tinham tempo para longas prosas nas ruas e na praça da Igreja Matriz.

João Mamão

Filho de Dona Luiza, matriarca de uma numerosa família vespasianense, João Mamão era o típico cidadão do interior de Minas Gerais. Conhecido e muito querido por todos, frequentava os diferentes ambientes do antigo Arraial, transitando por ruas e bares com seu jeito discreto e sempre disposto a compartilhar uma boa conversa. De fala breve, definia os sentidos da vida com poucas palavras. Um cigarro de palha, uma branquinha “sem exemplo” e o tom de voz doce ajudavam a tecer, sem pressa, o novelo das calmas manhãs da antiga Vespasiano.

Lapueba

Poeta popular, vaqueiro por profissão e figura muito querida em Vespasiano, Lapueba marcou a história do antigo Arraial. Quando mais jovem, conduziu boiadas por todo o cerrado mineiro tocando berrante como ninguém. Em cada parada, uma emoção diferente. Não havia quem não conhecesse, em toda a região, o vaqueiro Lapueba: homem simples, do povo, profundamente amado e admirado. Mesmo sem estudo formal, tornou-se um grande poeta popular. As palavras fluíam de seus lábios, construindo versos de amor e de esperança.

Recentemente, conheci no bairro Lapinha, em Lagoa Santa, um antigo vaqueiro — hoje pequeno proprietário rural —, gente da melhor qualidade, conhecido como José Fuxico. Amigo de Lapueba, ele relembrou com saudade os tempos em que ambos buscavam boiadas em áreas longínquas, atravessando dias e noites em uma aventura interminável.

José Fuxico me contou dois causos sobre Lapueba. O primeiro aconteceu quando traziam da região do Serro um grande número de bois e bezerros para entregar em fazendas de Lagoa Santa e Vespasiano. O proprietário do gado os acompanhava. Certa noite, os vaqueiros montaram acampamento, prepararam a boia, tocaram viola e foram dormir, deixando o gado por perto. Na manhã seguinte, cadê a boiada? Para o desespero do dono, os animais haviam se espalhado por toda parte. Foi aí que acordaram o nosso herói. Lapueba olhou tranquilamente para o tempo, passou uma água fria no rosto, tomou um gole de café e caminhou vagarosamente com o berrante debaixo do braço. Tocou, tocou e tocou, soltando aquele som inigualável. Não demorou muito para o gado ir se juntando, lentamente, até que todos estivessem reunidos ao seu redor. Parecia uma flauta mágica atraindo os animais. “Foi uma coisa impressionante, nunca vi nada igual”, narrou Zé Fuxico.

Fuxico lembrou ainda o segundo causo: “Estávamos passando pela cidade de Milho Verde e algumas moças bonitas, sentadas na varanda de uma casa, olhavam discretamente para nós. Uma delas tomava café”. Lapueba se aproximou a cavalo e, para a surpresa de todas, soltou o verbo — ou melhor, os versos:

Hoje, vou tirar a patente e deitar na minha rede.
Meu patrão, que é um homem muito rico, toma café com biscoito e mingau de milho verde”.

As moças ficaram encantadas com aquele vaqueiro, galã e poeta que, por onde cavalgava, deixava rastros de emoção e alegria.