Personagens da História de Vespasiano

Dona Mariana Joaquina da Costa, Mário Faraj e Seu Daquincas: a fundadora, o historiador e o benfeitor

Por Euler Jr.

Os três personagens que selecionei para descrever em breves linhas tiveram papéis relevantes na nossa história. Dona Mariana é considerada a fundadora da cidade de Vespasiano. Mário Faraj foi quem escreveu o principal livro sobre as nossas origens. Já Seu Daquincas é visto como um dos grandes benfeitores do município em seus primórdios.

Claro que há dezenas de outros personagens tão importantes quanto os que destacamos neste texto. Aos poucos, vamos revisitar o passado e trazer à tona outras figuras que também marcaram o surgimento de Vespasiano.

A Fundadora: Dona Mariana Joaquina da Costa

Dona Mariana Joaquina da Costa era natural da cidade de Santa Quitéria (hoje Esmeraldas). Ela foi a escolhida do rico fazendeiro Joaquim da Fonseca Ferreira, um dos herdeiros da icônica Fazenda Carreira Comprida, em Santa Luzia. O majestoso prédio colonial do Maçarico, que infelizmente foi demolido, pertencia ao tronco familiar do marido de Dona Mariana.

Quando os dois se casaram, ela tinha apenas 13 anos, enquanto ele já era um homem feito. O casal não teve filhos. Alguns anos depois, Dona Mariana se tornou viúva e proprietária de terras, joias e dinheiro. Era uma mulher “orgulhosa, soberba e vaidosa”, segundo relata Mário Faraj, citando o que ouvia dos contemporâneos dela.

A Fazenda Capão, que deu origem ao antigo Arraial do Capão — primeiro nome do local que mais tarde se tornaria Vespasiano —, era propriedade de Dona Mariana. Praticamente todas as terras no entorno da área central da cidade pertenciam a ela. Aos poucos, ela se desfazia dos lotes argumentando: “Não tenho filhos e tampouco parentes, portanto vou vender o que tenho, pois não sei a quem deixar”.

Se Dona Mariana resolvesse criar gado, ou tivesse vendido toda a sua área para algum grande fazendeiro da época, talvez Vespasiano nem existisse hoje. Mas ela soube aproveitar sabiamente a construção da nova capital mineira, no final do século XIX, para incentivar a vinda de pessoas para o pequeno e nascente arraial.

Seu Daquincas. Foto do livro Aletheia Vespasiano, de Nizete Fonseca Lima.

O Benfeitor: Seu Daquincas

Um desses ilustres moradores que apostaram nas oportunidades do antigo arraial foi Joaquim José da Silva, conhecido como Seu Daquincas. Ele veio da cidade de Dores de Campos, que fica a 40 km de São João del-Rei. Quando chegou aqui, ficou hospedado durante um tempo no sobrado de Dona Mariana, até erguer sua própria residência: uma bela casa bem no centro da cidade.

Seu Daquincas se tornou proprietário da Fazenda Pombal — onde hoje fica a Soeicom — e lá explorava a indústria da cal. Foi ele quem fez a canalização da água, doada por Dona Mariana, até o reservatório do bairro “Favela”, próximo à Igreja Matriz.

Seu Daquincas também providenciou a arborização da principal rua da cidade, que vai da Rua Francisco Lima até a Rua Ary Teixeira da Costa. Contudo, essa iniciativa foi frustrada por conta dos cabritos da época, que comiam as folhas das árvores recém-plantadas.

A casa de Seu Daquincas era uma das atrações da cidade e recebia vários visitantes. Em 1920, o local acolheu o Rei Alberto da Bélgica. Em passagem pela capital mineira, o monarca visitou a região de Lagoa Santa, atraído pelas descobertas arqueológicas do renomado dinamarquês Peter Lund. Para a surpresa do rei, uma das filhas de Seu Daquincas, Camélia Silva, falava o idioma francês fluentemente, o que causou uma forte e positiva impressão na comitiva real.

O Trem e o Nome da Cidade

Com a chegada da estação ferroviária em 1894 — poucos anos antes da inauguração de Belo Horizonte, em 1897 —, o então Arraial do Capão ganhou vida nova. O transporte ferroviário era o grande impulsionador do progresso, trazendo e levando mercadorias e pessoas diariamente. O trem transportava riquezas, mas também sonhos e esperanças. Daqui saíam vagões carregados de cal, milho e feijão.

Devido à importância desse avanço, o antigo arraial adotou o nome do diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil: o coronel gaúcho Vespasiano Gonçalves de Albuquerque e Silva. Ele ficou pouco tempo nesse cargo importante e sequer chegou a visitar a cidade que levou seu nome.

O mesmo aconteceu com a cidade vizinha de Pedro Leopoldo, que antes se chamava Cachoeira Grande. Embora seja mais antiga que Vespasiano, a cidade adotou o novo nome por razões muito semelhantes, homenageando outra figura ligada à ferrovia.

Mário Faraj. Foto do Arquivo pessoal.

O Historiador: Mário Faraj

Quem deixou registrado em um primoroso livro essas e outras histórias foi o escritor Mário Faraj. Seus pais, Dona Rosa e Seu Habib Faraj — conhecido como Seu Felipe —, vieram, respectivamente, do Líbano e do Egito. Após uma breve passagem pelo Rio de Janeiro, escolheram fixar residência no então distrito de Vespasiano, que na época ainda pertencia ao território de Santa Luzia.

Aqui, eles estabeleceram um grande comércio no centro da cidade. O irmão de Dona Rosa, José Neder, que tinha nascido onde hoje é a Síria — na época, toda aquela região pertencia ao Império Otomano —, também abriu um grande comércio bem próximo à Estação Ferroviária, em um lindo casarão que ainda existe.

Deve-se a Mário Faraj o registro de boa parte da memória da cidade. Não fosse sua memória prodigiosa e seu empenho em anotar as histórias desde a juventude — anotações que deram base para o livro História de Vespasiano” —, talvez ninguém jamais saberia desses fatos.

A história da fundadora da cidade, por exemplo, só é conhecida porque ele teve o cuidado de pesquisar e narrar a vida dessa enigmática senhora. Para isso, ele contou com a inestimável colaboração de sua sobrinha, a professora Nizete Fonseca Lima, e do jornalista Antonio Lima. Antonio escreveu o capítulo sobre o próprio avô, Francisco Antonio de Lima (o Seu Lima), outro personagem de grande relevância para o município.

O Triste Fim e a Fé de Dona Mariana

Embora tenha possuído terras e dinheiro durante muitos anos, no final da vida, Dona Mariana — já viúva e sem parentes — morreu pobre e cega. Ela chegou a pedir esmolas nas ruas da cidade que ajudara a fundar, mas consta que jamais perdeu a altivez.

Mário Faraj ainda era criança quando, atendendo a um pedido de sua mãe, caminhava pelas ruas guiando Dona Mariana. Nessas andanças, apoiando-se no ombro do menino, ela contava histórias de fadas e príncipes encantados, mas também falava sobre sua própria vida.

Contou-lhe, por exemplo, que quando o Imperador Dom Pedro II esteve em Lagoa Santa, em 1881, ela foi até lá para presentear a comitiva real com tecidos finos trazidos da Europa (veja aqui a matéria sobre a passagem de D. Pedro II em nossa região).

Muito religiosa, Dona Mariana gastava boa parte de sua fortuna comprando obras sacras. O presépio que montava anualmente era enriquecido com ornamentos de ouro e imagens valiosas de santos e anjos. Nas festas religiosas em Lagoa Santa, Santa Luzia, Sabará e Ouro Preto, ela participava sempre acompanhada de inúmeras ex-escravas.

Ela também usava o dinheiro que arrecadava com a venda de lotes para comprar presentes para seus incontáveis afilhados e comadres no arraial de Lagoa Santa, segundo conta Mário Faraj. Ela nutria uma devoção especial por São Francisco de Assis.

O Legado de Fé

Naqueles tempos, nenhum vilarejo do Brasil, especialmente em Minas Gerais, era considerado uma comunidade de fato se não tivesse uma igreja católica. Erguer um templo representava o marco de fundação de qualquer povoado.

Dona Mariana doou uma grande área para a construção da Igreja Matriz de Vespasiano (a Igreja Nossa Senhora de Lourdes), bem como o terreno da Praça da Matriz — hoje Praça Professora Júlia Chalita. Antes da construção da antiga matriz, ela mandou erguer uma capela dedicada à santa, onde havia um sino instalado entre dois enormes postes de madeira. “Em frente à capela, também existia uma enorme cruz, com todos os instrumentos do suplício de Jesus”, narra Faraj.

Foi Dona Mariana quem doou o terreno do Cemitério Velho da cidade. Já o terreno onde se ergueu o Grupo Escolar Coração de Jesus, o primeiro colégio de Vespasiano, foi doação de Seu Daquincas. Dona Mariana também doou a água que abastecia a cidade, canalizada de uma nascente que corria dentro de suas terras.

Os ex-prefeitos Sebastião Fernandes e José Elias Issa, do livro História de Vespasiano, de Mário Faraj

A Emancipação e a Primeira Câmara

Quando houve a emancipação político-administrativa de Vespasiano, em 27 de dezembro de 1948, tanto Dona Mariana quanto Seu Daquincas já haviam falecido. Mário Faraj, por sua vez, fez parte da primeira Câmara de Vereadores, eleita em 1949. A composição contava com João Silva (presidente), Mário Faraj (secretário), Ilvo Marani, Dumas Chalita, José Sebastião dos Santos, Joaquim da Fonseca Filho, José Lopes, José Rosa de Lima e Santos dos Santos Tomé.

O primeiro prefeito eleito foi Sebastião Fernandes, um fazendeiro muito respeitado e proprietário da Fazenda das Caieiras — onde hoje fica o conjunto habitacional de mesmo nome, próximo ao centro. O segundo prefeito foi José Elias Issa, um rico comerciante e atacadista, igualmente muito estimado. Esses dois dirigentes foram eleitos duas vezes de forma intercalada, já que a reeleição direta não era permitida na época.

Sobre a fundadora, Faraj relatou que Dona Mariana ficou cega por ter “banhado os olhos azuis com ervas venenosas (cicuta)”. Quando o historiador caminhava com ela pelas ruas, entre 1915 e 1918, ela devia ter mais de 75 anos, mas ainda mantinha a voz forte e a boa pronúncia. Ela sabia ler e escrever, o que era um grande privilégio naquele tempo. Dona Mariana Joaquina da Costa faleceu no dia 12 de outubro de 1925, aos 85 anos.

Três Histórias Envolvendo Nossos Personagens

Padre José Senabre. Foto do livro História de Vespasiano, de Mário Faraj

1. Os Bastidores da Emancipação de Vespasiano

A emancipação de Vespasiano, em 1948, foi fruto de uma grande mobilização popular. Uma comissão, liderada pelo padre espanhol José Senabre Sanroman — nomeado vigário da Matriz em 1936 e construtor do Círculo Operário e do Santuário Santo Isidro —, cuidava dos contatos políticos com Santa Luzia e o governo estadual.

Padre José Senabre era firme: em várias ocasiões, inclusive diante das autoridades que julgavam o pedido de emancipação, ele dizia claramente que quem se opusesse seria excomungado. Naquela época, o aviso soava quase como uma condenação ao inferno.

Enquanto isso, o morador João Silva, sobrinho do Seu Daquincas e conhecido como Ti-João, ficou responsável por organizar a lista de moradores para provar que o distrito tinha a população exigida por lei. Na verdade, faltavam habitantes. Para resolver o problema, Ti-João “ressuscitou” alguns mortos na lista e garantiu o preenchimento do requisito.

Mário Faraj também acabou ajudando sem querer. Convocado como mesário em uma disputa municipal muito acirrada em 1948, ele registrou em ata, por descuido, o horário exato do encerramento da votação, que ocorreu com cinco minutos de atraso. Esse pequeno erro anulou a urna da seção, o que acabou favorecendo o candidato adversário — que não era apoiado pelos chefes políticos de Vespasiano.

Se essa urna não fosse anulada, o prefeito eleito de Santa Luzia seria o aliado do grupo emancipacionista, o que atrasaria a independência de Vespasiano por anos devido a compromissos políticos locais. Com a vitória da oposição em Santa Luzia, o desejo de separação ganhou força total. Como o próprio Faraj resumiu: “Perdemos a eleição de uma maneira muito tristonha, mas por causa disso ganhamos a nossa independência política”.

2. A Fábrica de Cimento e as Reviravoltas da História

Pouca gente sabe, mas Vespasiano estava destinada a ter uma fábrica de cimento bem antes da Soeicom. Em seu livro, Mário Faraj revela que, no final dos anos 1920, Seu Daquincas planejava construir a fábrica e dependia do apoio do influente Conde Dolabella, um dos diretores da Estrada de Ferro Central do Brasil.

O negócio estava pronto para sair do papel quando estourou a Revolução de 1930. Com a mudança no cenário político nacional, o Conde Dolabella perdeu sua força política na oposição, e o projeto da fábrica foi arquivado.

Quase cinquenta anos depois, outra revolução mudou os rumos da cidade. Com a independência de Angola e Moçambique na África, o empresário português António Champalimaud perdeu suas indústrias de cimento naquelas antigas colônias. Ele escolheu Vespasiano para recomeçar e ergueu a fábrica da Soeicom.

A região é muito rica em pedra calcária, o que explica a forte presença de indústrias de cal e cimento em Vespasiano, São José da Lapa, Pedro Leopoldo e Matozinhos. Porém, no caso de Vespasiano, apesar dos empregos e investimentos gerados, a população local ainda aguarda por soluções ambientais mais adequadas. Fica a dúvida: como teria sido se o projeto original de Seu Daquincas tivesse prosperado nos anos 30?

3. “Minha Palavra Não Volta Atrás”

Apesar de enfrentar dificuldades na velhice, Dona Mariana ainda era dona de uma grande área no centro da cidade. Um morador vindo de fora, Gonçalo de Moura, conquistou a confiança da fundadora e comprou o terreno por um valor insignificante. Ao descobrirem o negócio, alguns cidadãos indignados ofereceram uma quantia 16 vezes maior para desfazer a venda. Firme em seus princípios, ela respondeu: “Minha palavra não volta atrás!”.

Apesar de ter comprado o terreno por um preço irrisório, Gonçalo de Moura teve um gesto de gratidão: construiu um chalé ao lado da Igreja Matriz para que ela morasse até os seus últimos dias.

Dona Mariana, que viveu cercada de amigos quando era rica e poderosa, passou os últimos anos quase abandonada. Segundo Mário Faraj, sua mãe, Rosa Neder Faraj, junto com Dona Maria Olinda da Silva (esposa de Seu Daquincas) e Dona Amália da Silva, eram das poucas pessoas que a visitavam para levar comida e remédios. Dona Rosa sempre lembrava o velho provérbio português: “Fervem os amigos enquanto a panela ferve”.

Curiosamente, não se conhece nenhuma foto da fundadora de Vespasiano. O busto inaugurado na Praça da Matriz foi feito com base em um retrato falado desenhado pela talentosa artista plástica local Ana Maria Machado Malaquias.

O nome da fundadora hoje batiza uma das principais ruas do centro e o Museu Dona Mariana da Costa. O museu funciona na Casa da Cultura Aluízio Barbosa Maritns, o belo sobrado histórico que serviu como primeira sede da Câmara e da Prefeitura após a tão sonhada emancipação.

Casa de Seu Daquincas, onde hoje é o Funil Clube. Foto: do livro Aletheia Vespasiano, de Nizete Fonseca Lima.
Fazenda do Maçarico, construída pelos antigos donos da Fazenda Carreira Comprida.
Casa da Cultura Aluízio Brabosa Martins, primeira sede da Câmara e da Prefeitura após a emancipação de Vespasiano.