Personagens da história de Pedro Leopoldo:

Júnia Sales, Geraldo Leão e Dona Zélia Cerqueira Barbosa

Por: Euler Jr.

Pedro Leopoldo é uma cidade da Grande BH com uma rica história. Foi lá onde nasceu e viveu, durante muitos anos, o mais importante médium e divulgador do Espiritismo no Brasil, Chico Xavier. Foi lá também, em uma área que faz divisa com Lagoa Santa, onde encontraram o crânio da mais antiga moradora de toda a região: Luzia. É uma cidade que guarda, portanto, grande riqueza cultural, histórica e arqueológica.

No início da década de 80, como editor de um pequeno jornal de interior, visitava com frequência a vizinha cidade de Pedro Leopoldo. Ia quase sempre de ônibus. A cidade já possuía um comércio vibrante, que ocupava os dois lados da enorme Avenida Comendador Antônio Alves, a qual eu percorria quase sempre. Entrevistei lideranças políticas locais, como os ex-prefeitos Cecé, Tadeu e Hélio Issa, além de vereadores como Sélio Sena e Juca da Farmácia, que sempre anunciavam no nosso jornalzinho. Pessoas da comunidade como Artur Neves, Magno Claret (in memoriam), Mário Lúcio e Heli Lima, entre outros, tornaram-se colaboradores do periódico.

Mas foi no final da década de 90, quando cursei a licenciatura em História na Faculdade de Ciências Humanas de Pedro Leopoldo, que tive a oportunidade de conhecer e conviver quase diariamente com duas das três pessoas que homenageamos hoje: Dona Zélia, então diretora da faculdade, e Júnia Sales, professora de História da instituição, que mais tarde se tornaria coordenadora do Departamento de História da UFMG. Com o memorialista Geraldo Leão, tive uma rápida convivência no momento em que era criado o Arquivo Público da Cidade de Pedro Leopoldo, que levava o nome dele, merecidamente.

A saudosa professora Júnia Sales Pereira era dessas pessoas que conquistavam naturalmente a nossa admiração pela simplicidade, delicadeza e atenção que dedicava a cada estudante. Autora de livros e estudos encantadores sobre temas e personagens da nossa história, Júnia produzia textos com uma linguagem refinada — nada de chavões nem lugares-comuns. Certa vez, participou e venceu o Concurso Nacional de Ensaios – “Centenário Gustavo Capanema”, promovido pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Nestlé de Cultura. Recebeu um valor em dinheiro bem expressivo e comentou conosco, sorridente, que aquele prêmio daria para quitar o restante do financiamento de sua casa própria, onde vivia com o marido e os filhos.

Foi Júnia quem me incentivou a escrever o livro Casos e Coisas da Minha Terra, quando lhe mostrei algumas publicações que fiz com esse mesmo nome. Ela me disse mais ou menos assim: “Seu livro já está pronto, é só fazer um apanhado dos seus textos”. Pedi para ela fazer o prefácio do modesto livro, o qual, juntamente com o resumo da história de Vespasiano produzido por minha saudosa tia Nizete Fonseca Lima, conferia a essa publicação um valor histórico maior do que o próprio texto que escrevi.

Ao mesmo tempo em que apoiava as iniciativas dos estudantes em suas pesquisas, ela sempre propunha novos desafios. Era impressionante o volume de trabalho que assumia. Para um grupo de estudantes da minha turma, ela conseguiu um estágio, por tempo determinado, na montagem do Arquivo Público da cidade. Embora eu não fizesse parte desse grupo específico, ela pediu que eu participasse durante alguns dias desse importante trabalho de separar, higienizar, catalogar e preparar as coleções. Meus colegas fizeram um ótimo trabalho.

Foi nesses dias que conheci pessoalmente o memorialista Geraldo Leão. Antes de falar sobre esse importante personagem, não poderia deixar de mencionar que foi Júnia quem me orientou no trabalho de conclusão do curso de História. A faculdade tinha ótimos professores de História, Geografia, Filosofia e Sociologia, entre outras áreas. Não citarei nomes para não cometer a injustiça de esquecer alguém. Mas Júnia, seguramente, era a alma da escola na disciplina de História. Ter convivido com ela foi um grande privilégio para todos nós.

Nos dias em que ajudei meus colegas na montagem do Arquivo Público de Pedro Leopoldo, conheci Geraldo Leão, uma pessoa finíssima, atenciosa e totalmente dedicada às memórias locais. Lembram quando falei, no início deste texto, que andava pelas ruas da cidade no começo da década de 80? Já naquela época, era muito comum encontrar cartazes em pontos estratégicos, como no terminal rodoviário, com fotos antigas da cidade acompanhadas do crédito: “Arquivo Geraldo Leão“. Esse personagem, que este ano completará 90 anos (em 25 de julho), já se dedicava ao trabalho de coletar e registrar passagens da nossa história. Um verdadeiro guardião da memória de Pedro Leopoldo. Seu acervo é composto por centenas de vídeos, fotos, jornais e documentos variados.

Quando terminaram de montar o Arquivo Público — cujo trabalho dos estagiários era orientado por profissionais da área contratados pela prefeitura —, a cidade deu um passo fundamental na preservação de sua identidade. No entanto, embora o local tivesse sido estruturado com rigor técnico e cuidados científicos, tinha-se a impressão de que faltava um toque mais humano. Passados alguns meses da inauguração, perguntei a Júnia se o espaço estava funcionando. Ela me disse, em tom alegre, que estava indo muito bem e que Geraldo Leão tinha dado um outro tratamento para as coleções. Afinal, tudo o que ali se encontrava era resultado de um esforço pessoal dele, que teria se perdido na poeira do tempo se não fosse seu empenho. Imaginei que o arquivo tivesse adquirido uma nova vida: menos preso a normas rígidas e mais próximo da sensibilidade daquele que recolheu e organizou aquele rico material ao longo de décadas.

O Arquivo Geraldo Leão funcionou durante 12 anos (de 2000 a 2012), até que a prefeitura, por razões desconhecidas, resolveu fechá-lo. Mas o memorialista não desiste. Mantém boa parte dos guardados sob seus cuidados e montou uma página nas redes sociais, onde continua divulgando importantes passagens da memória pedroleopoldense.

Finalmente, não poderia deixar de mencionar outra personagem de grande relevância: a professora Zélia Cerqueira Barbosa, hoje também com 90 anos. Sua vida inteira foi dedicada a ensinar, como ela mesma menciona em uma entrevista recente para a página oficial da prefeitura no Instagram. Como diretora-geral da faculdade onde estudei, Dona Zélia era muito respeitada por todos nós. Recebia a todos em sua sala, sabia ouvir e tinha sempre uma palavra de apoio e esperança. Jamais fez qualquer gesto para tentar impedir ou boicotar nossas manifestações de protesto ou paralisações estudantis; pelo contrário, até nos incentivava.

A instituição mantinha convênios, FIES e parcerias que possibilitavam a manutenção do quadro de profissionais. Embora a faculdade oferecesse cursos de maior custo — como Administração, Ciências Contábeis e Engenharia de Informática, além da pós-graduação —, Dona Zélia tinha uma preocupação especial com os estudantes das licenciaturas: História, Geografia, Letras, Matemática e Normal Superior. Soube de vários casos de pessoas que não tinham condições financeiras para continuar os estudos, mas que eram mantidas na escola graças ao empenho pessoal dela. Tal como Júnia, Dona Zélia dedicava uma atenção individualizada a cada estudante que a procurava.

Portanto, ter conhecido e convivido com esses três personagens da história de Pedro Leopoldo foi um grande privilégio para mim. Imagino que tenha sido assim também para muitas outras pessoas.

(Publicado em 26/05/2026)